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A
primeira batcaverna a gente nunca esquece
Texto: Manoel de Souza*
*Colaboraram: Fransérgio, Boy, Mosca e André Mello
Para quem não sabe, a Semana
do Cacá era um evento anual em que, durante sete dias, os
alunos expunham seus trabalhos. Todos os cursos participavam e
haviam salas de fotografia, enfermagem, projetos de decoração,
desenhos, pinturas, colagens e esculturas. Mas o que realmente
fazia sucesso eram as salas temáticas criadas pelos próprios
alunos.
Montar uma sala em grupo quando se é adolescente
não é uma tarefa fácil e no ano de 1989 a
coisa era ainda mais difícil. Uma greve dos professores
ocorrida pouco antes do meio do ano atrasou as aulas em quase três
meses. Isso levou muitos recém-chegados a abandonarem o
KK e o clima para quem ficou estava meio pesado. Acredito que nós,
alunos do 1o C de Desenho de Comunicação, só tivemos
um novo ânimo devido à Semana do Cacá daquele
período.
COMO SURGIU A IDÉIA
Naquele ano foi lançado no cinema o primeiro filme do Batman, um estrondoso
sucesso que deu início à batmania. Como éramos fanáticos
por quadrinhos, não foi nada difícil imaginar uma sala para homenagear
nosso personagem preferido. Não lembro ao certo, mas parece que a idéia
partiu do Fransérgio,
que logo escalou o Sandro (vulgo “Boy”),
o André Mello,
o Raul (que perdi contato) e o Ronnie (este
só estudou conosco no primeiro ano e depois desapareceu). A idéia
foi crescendo e juntaram-se o Alexandre (vulgo “Mosca”),
o Rodrigo (que
desenhava para caramba e depois perdemos contato), o Ailton (hoje
o famoso Dr. Ailton) e eu (que
desde então saio à noite atrás de criminosos no Butantã).
Graças ao empenho dos participantes, a sala foi um sucesso e marcou época
na história das exposições do KK. Montamos um túnel
logo na entrada que simulava a batcaverna, onde vários tules molhados
pendurados no teto pegavam as pessoas de surpresa. Logo em seguida aparecia um
cenário dos prédios de Gotham City, feitos de papelão e
pintados com spray. A trilha sonora do filme, composta pelo Prince, aumentava
o clima sombrio. Aí as pessoas chegavam até à vedete da
sala – um vídeo-cassete colocado entre os prédios, que passava
o filme do Batman na íntegra, antes mesmo dele ter chegado às locadoras.
Uma cortesia do irmão do Fransérgio, que conseguiu uma cópia
pirata, coisa muito difícil na época. Esta atração
fez com que formassem grandes filas na porta da sala.
TINHA ATÉ BATSINAL
Outra sacada fabulosa foi inventada pelo Mosca e pelo Raul. Numa das noites do
evento, colocamos um projetor de slides na janela e, com um símbolo do
morcego desenhado em acetato, simulamos o batsinal na quadra. Sorte foi o professor
Sílvio Manzaro conseguir filmar a cena um
pouco antes do projetor queimar. “Foi um tesão ver os veteranos
da época, metidos a underground, pagando um sapo para o nosso batsinal”,
comemora saudoso Sandro “Boy”.
Dentro da sala também haviam várias atrações. As
paredes pareciam um verdadeiro museu com vários desenhos, caricaturas
e histórias
em quadrinhos sobre
o Batman. Nas mesas, ficavam expostos dezenas de produtos da batmania, como revistas, álbuns
de figurinhas, bonecos, chaveiros e diversos outros bagulhos. Haviam também
muitos cartazes nas paredes que pegamos “emprestados” das bancas
de jornal da região do Brás.
Poucas coisas não deram certo. Uma delas foi idéia do Fransérgio,
que comprou um ratinho num pet shop e queria colocar uma asa de morcego no coitado,
para depois exibí-lo em um aquário na sala. Ele já tinha
até bolado uma legenda para o aquário; “Há pessoas
que pensam que o morcego não passa de um rato com asas!” Tão
horrível quanto a frase foi o rato ter sumido logo no primeiro dia. “Talvez
ele tenha usado as asas que a gente colou e saiu voando”, arrisca Fransérgio.
Ou talvez ele ainda more no porão da escola...
Todos os visitantes, principalmente os que vieram de fora do KK, elogiaram muito
nosso trabalho. O professor Moa não acreditava que alunos ainda do primeiro
ano sozinhos tivessem conseguido fazer um trabalho daquele porte. A única
coisa lastimável foi ninguém ter batido fotos para registrar o
resultado e os bastidores deste trabalho memorável. Estou à procura
de quem possa resolver esta falha histórica.
São Paulo, 03/07/2004
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